Dois meses após a colheita, relatório do USDA mostra safra 3,6 milhões de toneladas menor que a estimada há quatro semanas.
Uma bateria de números divulgada pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) fez as cotações dos grãos explodirem ontem no mercado internacional. Na Bolsa de Chicago, soja e milho atingiram o limite de alta durante o pregão e encerram a quarta-feira no melhor preço desde julho de 2008. A oleaginosa terminou os negócios do dia valendo US$ 14,09 o bushel (27,2 quilos), ou cerca de US$ 31 a saca de 60 quilos, com alta de 58,5 pontos. O cereal avançou 24 pontos, para US$ 6,31 o bushel (25,4 quilos), o equivalente a quase US$ 15 a saca.
O gatilho para a disparada foi uma redução de 3,6 milhões de toneladas nos números de produção de grãos dos EUA da safra 2010/11 em relação ao relatório de dezembro. Dois meses após o encerramento da colheita no país, o USDA promoveu nova revisão nas suas estimativas de safra de soja e milho, agora calculadas pelo órgão em 90,5 milhões e 316,2 milhões de toneladas, respectivamente (veja quadro ao lado).
O corte apertou ainda mais o já estreito quadro de oferta e demanda norte-americano. Com produção menor e demanda interna e externa aquecida, as reservas de grãos do país encolheram novamente. Os estoques de soja dos EUA, que somaram 4,1 milhões de toneladas na temporada anterior, devem recuar a 3,8 milhões em 2010/11. O excedente de milho cai à metade neste ciclo, passando de 43,4 milhões para 18,9 milhões de toneladas.
Os reajustes, maiores que o esperado pelo mercado, deflagraram uma onda de compra de ativos agrícolas em Chicago e desenham um cenário positivo para as cotações da soja e do milho durante a colheita de verão brasileira. “Como o consumo está muito forte, qualquer desvio na produção é um fator altista para o mercado de grãos”, explica o analista da AgraFNP Aedson Pereira.
Steve Cachia, analista da Cerealpar, acrescenta que o resultado da safra da América do Sul ainda não está garantido e diz que a possibilidade de novos reajustes para baixo na produção argentina gera “um sentimento de preços firmes” no mercado internacional. “Principalmente porque a demanda, especialmente da China, está muito forte. Caro ou barato, o mundo precisa comer. Mas, com estoques baixos, será necessário racionar o consumo. E isso só é possível através do aumento de preços”, considera.
Pereira observa que o comportamento do mercado de grãos neste ano é muito similar ao de 2008, quando soja e milho bateram recordes históricos na Bolsa de Chicago, a US$ 16,58 e US$ 7,55 o bushel, respectivamente. Ele afirma, contudo, que dificilmente as cotações ultrapassarão esses níveis neste ano. “Os estoques estão apertados, mas não há fundamento para preços tão elevados assim. Essa alta é, em boa medida, especulativa. Os fundos de investimento estão correndo para as commodities”, relata.
Segundo o analista da AgraFNP, a produção menor foi o combustível que faltava para ampliar um movimento de alta detonado pela guerra cambial que está depreciando o dólar ao redor do globo. “O grande problema é o câmbio. Com a cotação caindo, quem é que vai querer ficar com dólar na mão? Hoje os ativos agrícolas são muitos mais rentáveis”, diz.
Crescem as vendas antecipadas
Os preços em alta na abertura da colheita animam os agricultores brasileiros. “O otimismo voltou ao Brasil. Se US$ 11 por bushel de soja já davam boa margem, imagine a US$ 14. A tendência é de alta, mas o produtor não está pagando para ver. Está fixando tudo que pode. Fechamos 2010 com 40,8% da safra comprometidos e, ainda assim, as vendas continuam aquecidas neste mês”, relata Aedson Pereira, da AgraFNP. O índice está bastante acima do registrado em anos anteriores – próximo de 30%.
O cenário é positivo, mas exige cautela, afirmam os analistas. Eles consideram que ainda existe uma série de fatores que podem limitar os ganhos do produtor brasileiro. O principal deles é o real forte, que freia o avanço do mercado doméstico e faz com que as cotações internas subam menos que as internacionais.
Ainda assim, os preços são remuneradores. O Porto de Paranaguá tem registrado negócios entre R$ 52 e R$ 53,5 para entrega em março e em Cascavel a saca futura é vendida a R$ 47, mostra levantamento da consultoria. Na média do estado, os negócios ocorrem a R$ 46 no interior, segundo o Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria Estadual da Agricultura e do Abastecimento (Seab). (LG)
Corte surpresa A redução acima da esperada na produção norte-americana de grãos foi a maior surpresa do relatório de oferta e demanda mundial divulgado pelo USDA ontem. Veja os principais destaques:
Estados Unidos
Após cortes sucessivos na estimativa de produção de grãos, os EUA já perderam quase uma safra de verão do Sul brasileiro. No auge do otimismo, o USDA chegou a projetar 95 milhões de toneladas de soja e 340 milhões de milho. Mas desde a metade de 2010 as estimativas recuaram 26,7 milhões de toneladas, considerando os dois grãos. A previsão da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) é que a produção de soja e milho de verão some 29,5 milhões no Sul do Brasil no ciclo 2010/11.
Brasil
Contrariando todas as expectativas, o USDA manteve inalteradas as suas estimativas para a produção de soja e milho do Brasil. A safra da oleaginosa é calculada em 67,5 milhões de toneladas e a do cereal em 51 milhões (verão e safrinha). A Expedição Safra Gazeta do Povo trabalha com número maior para a soja, que tem potencial para 68,7 milhões de toneladas. A primeira safra de milho é estimada pela Expedição em 31,2 milhões de toneladas.
Argentina
Diante da seca generalizada que coloca em xeque a safra de verão argentina, os cortes promovidos pelo USDA em suas estimativas para o país sul-americano ficaram aquém do aguardado pelo mercado. A projeção para a soja passou de 52 milhões de toneladas para 50,5 milhões e a do milho de 25 milhões para 23,5 milhões de toneladas. Consultorias locais esperam 40 milhões (t) de soja e abaixo de 20 milhões (t) de milho.
fonte: gazetamaringa.com.br